Travessia em carne viva

Texto de Ana Prado

Cresci aprendendo a duvidar de mim.

Não foi um aprendizado anunciado. Não houve uma frase única que dissesse “você não vai conseguir”. Foi mais difuso. Mais persistente. Um acúmulo de gestos, de silêncios, de pequenas interrupções. Como se o mundo, antes mesmo de qualquer tentativa, já tivesse desenhado um mapa estreito, quase sem passagem.

E eu acreditei.

Acreditei que meu lugar já estava definido. Que alguns caminhos não haviam sido feitos para mim. Cresci assim: entre o desejo de ir e a expectativa de não chegar.

A baixa autoestima não nasce de dentro — ela se instala. A insegurança também. Vão sendo ensinadas, repetidas, incorporadas até parecerem naturais.

Mas não são.

Há um momento — que não é um instante, mas um processo — em que aquilo que nos ensinaram sobre nós deixa de caber.

Talvez seja isso que Clarice Lispector toca: aquilo que transborda, aquilo que insiste em existir para além da forma que lhe deram.

E então, alguma coisa insiste.

Vim com o que havia: dúvidas, hesitações e uma vontade que, ainda assim, não cedia. Uma vontade pequena às vezes, quase silenciosa — e teimosa.

E fui.

Não foi fácil — mas é preciso dizer com precisão: não era impossível.

As dificuldades não estavam em mim.

Estavam no mundo.

Nas portas que não se abrem.

Nas expectativas reduzidas.

Nas leituras apressadas que confundem diferença com incapacidade.

Nas barreiras atitudinais que diminuem antes mesmo de conhecer.

Há um cansaço que se acumula quando tudo precisa ser mais.

Mais esforço.

Mais tempo.

Mais prova.

Um cansaço que não aparece — mas que sustenta tudo.

Um cansaço que o diploma não registra.

E, ainda assim, segui.

Houve quem estendesse a mão. Houve encontros que abriram passagem, que deslocaram o que parecia fixo. Essas presenças importam — e muito.

Mas também encontrei a dúvida.

Encontrei quem me olhasse apenas pelo que imaginava que eu não poderia fazer.

Encontrei quem confundisse diferença com incapacidade.

Encontrei quem transformasse previsão em sentença.

Isso dói.

Isso fica.

Porque crescer não é somar conquistas. É também aprender a não se curvar ao que tenta te reduzir.

Minha trajetória não é uma linha de superação.

Não há heroísmo aqui.

Há uma cartografia feita no corpo, no tempo e na insistência.

Um caminho que não existia antes de ser percorrido.

Muitas vezes, precisei abri-lo com as mãos.

Talvez por isso a literatura sempre tenha estado tão perto.

Porque há coisas que só se dizem quando a linguagem também se desloca.

Como escreve Manoel de Barros, é preciso “transver o mundo”.

E foi isso que, pouco a pouco, fui aprendendo a fazer: não aceitar a forma dada, não caber na medida imposta.

Hoje, quando digo que me tornei doutora, não digo como quem venceu uma limitação pessoal.

Digo como quem atravessou um campo de forças.

Digo como quem permaneceu quando tudo apontava para desistir.

Digo como quem fez caminho onde ele não estava garantido.

Digo como quem recusou as fronteiras que outros tentaram transformar em destino.

E isso precisa ser nomeado.

Não é sorte.

Não é favor.

Não é exceção.

É trabalho.

É insistência.

É permanência.

Permanecer também é uma forma de resistência.

Cresci aprendendo a duvidar de mim.

Hoje sei:

aquela dúvida nunca foi minha.

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