Texto de Ana Prado
Estudar a deficiência exige um deslocamento epistemológico que não se sustenta apenas na mudança de objeto, mas na transformação do modo de produzir saber. Durante muito tempo, a deficiência foi tomada como algo a ser observado de fora, descrita em termos de falta, desvio ou limitação, como se a experiência pudesse ser plenamente capturada por um olhar que se coloca acima dela. Esse gesto de distanciamento, frequentemente legitimado como neutralidade científica, coloca em questão a própria ideia de neutralidade e produz uma assimetria silenciosa: fala-se sobre a deficiência, mas raramente se produz conhecimento com aqueles que a vivem.
Essa crítica encontra ressonância em diferentes tradições contemporâneas, especialmente nos Estudos da Deficiência e nas abordagens de pesquisa participativa, como aquelas desenvolvidas por Márcia Moraes, que formula o “pesquisarCOM” como ética e método. Nessa perspectiva, o saber não é extraído de um objeto, mas construído em relação, no encontro entre sujeitos que se afetam mutuamente. A pesquisa deixa de ser um ato de captura e passa a ser um campo de negociação de sentidos, onde a experiência não é dado a ser interpretado de fora, mas produção compartilhada.
Há, portanto, uma diferença decisiva entre tornar a deficiência objeto de investigação e reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos epistêmicos. No primeiro caso, o saber se organiza por meio da classificação, da normalização e da correção, sustentando regimes de verdade que reduzem a complexidade da experiência a parâmetros previamente definidos. No segundo, o conhecimento se constrói na escuta, na presença e na coautoria, onde a experiência não ilustra conceitos, mas tensiona e reorganiza os próprios conceitos.
Pesquisar com implica reconhecer que não há neutralidade possível quando se trata de vidas atravessadas por desigualdades historicamente produzidas. Implica admitir que toda produção de saber envolve escolhas éticas, políticas e sensíveis, e que tais escolhas não podem ser feitas sem a participação daqueles que foram historicamente colocados à margem dos processos de enunciação. Nesse sentido, a pessoa com deficiência não ocupa a posição de objeto interpretado, mas de interlocutor que interfere, desloca e reinscreve o próprio campo investigativo.
Essa mudança altera também o lugar de quem pesquisa. O pesquisador deixa de ocupar a posição de observador externo e passa a compor uma relação em que o saber é atravessado por múltiplas vozes, nem sempre harmonizáveis, mas constitutivas do próprio processo investigativo. O conhecimento deixa de ser propriedade individual e passa a ser prática relacional, feita de escuta, fricção e revisão constante de certezas.
Trata-se, assim, de uma inflexão ética e política na produção do saber: não mais a tentativa de capturar a deficiência em categorias fixas, mas a disposição de ser afetado por ela como experiência social, histórica e relacional. Nesse registro, pesquisar com, tal como formula Márcia Moraes, não é apenas um método, mas uma recusa ativa das formas tradicionais de objetificação e uma afirmação de que todo saber rigoroso nasce do encontro.