Quando a autonomia incomoda

Texto de Ana Prado

Carrego uma bengala.

Para mim, ela é apenas uma ferramenta de orientação. Um recurso que me acompanha nos deslocamentos cotidianos, como tantas outras ferramentas acompanham tantas outras pessoas.

Mas, às vezes, tenho a impressão de que ela produz efeitos que vão muito além daquilo para que foi criada.

Porque a bengala não apenas anuncia minha presença.

Ela parece anunciar disponibilidade.

Disponibilidade para perguntas.

Disponibilidade para suposições.

Disponibilidade para interpretações.

Basta que ela toque o chão para que algumas pessoas se sintam autorizadas a atravessar fronteiras que, em outras circunstâncias, permaneceriam intactas.

Estou caminhando.

Seguindo meu caminho.

Cuidando dos meus próprios assuntos.

E alguém pergunta:

— Está indo para onde?

Às vezes vem outra pergunta.

— Vai ao médico?

Ou:

— Vai para a igreja?

Durante muito tempo, encarei essas perguntas como simples curiosidade. Hoje penso que elas revelam algo maior.

Porque ninguém aborda pessoas desconhecidas para exigir explicações sobre seus caminhos.

Existe um acordo silencioso que organiza a convivência entre estranhos: a vida do outro lhe pertence.

Mas, quando a deficiência entra em cena, esse acordo parece vacilar.

De repente, meu destino deixa de ser apenas meu.

E talvez o mais revelador não seja nem a pergunta em si, mas aquilo que ela contém.

O médico.

A igreja.

Dois destinos que aparecem com uma insistência curiosa.

Dois lugares que, em nosso imaginário social, costumam estar associados à cura.

A ciência de um lado.

A fé do outro.

Como se a minha vida estivesse permanentemente situada entre um diagnóstico e um milagre.

Como se eu estivesse sempre a caminho de uma transformação.

Como se existisse, em algum lugar, uma versão corrigida de mim mesma.

Mas existe uma pergunta que sempre retorna a mim.

Cura de quê?

Porque a deficiência não é doença.

Não há nada em mim aguardando reparação.

Não há uma vida verdadeira escondida atrás da deficiência.

Não há uma existência mais legítima me esperando do outro lado.

Minha vida não começa depois da deficiência.

Minha vida acontece com ela.

Agora.

Todos os dias.

Cheia de responsabilidades, alegrias, preocupações, afetos, desejos, frustrações e projetos.

Inteira.

Talvez seja justamente isso que tantas pessoas tenham dificuldade de imaginar.

Talvez seja disso que fala Rosemarie Garland-Thomson ao analisar como determinadas pessoas são transformadas em objeto de observação pública. Quando a deficiência passa a ser lida como algo disponível ao olhar dos outros, perguntas que normalmente pareceriam invasivas passam a ser tratadas como naturais.

A mesma lógica aparece em outra pergunta que escuto com frequência.

— Você veio sozinha?

A cena muda.

O lugar muda.

As pessoas mudam.

Mas a pergunta permanece.

E sempre me chama atenção o fato de que ela dificilmente seria dirigida a alguém que enxerga.

Pessoas que enxergam simplesmente chegam.

Entram.

Circulam.

Ocupam espaços.

Sua presença não exige explicações.

Já a presença de uma pessoa cega frequentemente desperta surpresa.

E toda surpresa fala menos sobre quem é observado do que sobre aquilo que se esperava encontrar.

Talvez por isso o capacitismo nem sempre apareça como ofensa.

Nem sempre apareça como exclusão.

Às vezes ele aparece como espanto.

O espanto diante de uma autonomia que deveria ser considerada comum.

Lembro-me de um restaurante que frequentei durante muito tempo.

Eu costumava chegar acompanhada por amigos e por um namorado.

Todos nós éramos cegos.

Conversávamos.

Almoçávamos.

Ríamos.

Planejávamos viagens.

Comentávamos notícias.

Compartilhávamos a vida.

Nada extraordinário.

Apenas pessoas convivendo.

Um dia fui ao mesmo restaurante acompanhada de minha mãe, uma pessoa enxergante.

Ao me ver entrar, um funcionário comentou:

— Veio acompanhada hoje?

A frase foi breve.

Mas algumas frases permanecem muito tempo depois de terem sido pronunciadas.

Então, durante todo aquele tempo, eu não estava acompanhada?

Meus amigos não eram companhia?

Meu namorado não era companhia?

Nossas conversas não eram companhia?

Nossa presença compartilhada não era companhia?

Foi naquele momento que compreendi algo que nunca havia formulado daquela maneira.

A companhia só se tornou visível quando passou a enxergar.

A observação daquele funcionário não falava sobre minha mãe.

Falava sobre reconhecimento.

Nem todas as vidas recebem esse reconhecimento com a mesma facilidade.

Outro episódio continua atravessando minha memória.

Certa vez, minha bengala havia se quebrado durante um deslocamento. Por isso, telefonei para minha mãe e pedi que me aguardasse no ponto onde eu desembarcaria.

Era uma conversa privada.

Nada além disso.

Uma conversa entre uma filha e sua mãe.

Quando o ônibus chegou ao meu destino, um passageiro dirigiu-se ao motorista e explicou toda a situação. Disse que minha bengala havia se quebrado. Disse que minha mãe estaria me esperando. Disse aquilo que eu jamais lhe havia pedido para dizer.

Talvez acreditasse estar ajudando.

Mas o que permaneceu comigo não foi sua intenção.

Foi a naturalidade da invasão.

Minha conversa deixou de ser conversa.

Tornou-se informação.

Tornou-se explicação.

Tornou-se assunto.

E fiquei pensando em quantas vezes a vida de pessoas com deficiência é tratada como território público.

As reflexões de Judith Butler e Erving Goffman ajudam a compreender situações como essa. Em diferentes perspectivas, ambos mostram como determinadas pessoas vivem sob regimes de reconhecimento instável, tendo sua presença constantemente observada, interpretada e explicada por outros.

Talvez seja exatamente isso que conecta todas essas cenas.

A pergunta sobre para onde vou.

A pergunta sobre ter vindo sozinha.

O comentário no restaurante.

A conversa apropriada dentro do ônibus.

Em todas elas existe um mesmo movimento.

A dificuldade de aceitar que minha vida me pertence.

Que meus caminhos me pertencem.

Que minhas escolhas me pertencem.

Que minhas relações me pertencem.

Que minhas conversas me pertencem.

Que nem tudo sobre mim está disponível para consulta pública.

É impossível não lembrar de Paulo Freire quando insiste na necessidade de reconhecer cada pessoa como sujeito de sua própria história. Ninguém pode ocupar a voz do outro. Ninguém pode interpretar sua experiência em seu lugar.

Talvez seja exatamente isso que eu reivindique.

Não admiração.

Não heroísmo.

Não o lugar confortável da inspiração.

O que reivindico é algo muito mais simples.

E talvez muito mais radical.

O direito de caminhar pela cidade sem ser interrogada.

O direito de preservar meus silêncios.

O direito de manter minhas conversas privadas.

O direito de não transformar cada deslocamento em explicação.

O direito de existir sem que minha autonomia produza estranhamento.

Talvez o enfrentamento do capacitismo comece quando a bengala deixar de ser lida como um pedido de explicações.

Quando a autonomia deixar de provocar espanto.

Quando a curiosidade deixar de se confundir com direito.

E quando pessoas cegas puderem, finalmente, atravessar o mundo com aquilo que sempre deveria lhes ter sido garantido:

o direito de que suas vidas lhes pertençam.

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