Quando a pauta sai da bolha, alguma coisa começa a mudar

Texto de Thais Pessanha

Setembro termina marcado por um momento histórico: esse ano o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro, foi mais especial.

Na semana passada, tive a imensa honra e alegria de participar da ROG.e 2026 como palestrante (meu segundo ano, inclusive) e puder ver a pauta da pessoa com deficiência sair do espaço tradicionalmente reservado à Diversidade, Equidade e Inclusão e chegou à plenária central do principal evento da indústria de óleo e gás.

Thais Pessanha, uma mulher de longos cabelos escuros e usando uma máscara cirúrgica azul-clara, está sentada em sua cadeira de rodas em um palco, com o corpo ligeiramente voltado para a esquerda e olhando para o lado[cite: 5]. Ela veste um casaco preto fechado, calças escuras e sapatos, e segura um microfone com a mão direita próximo ao rosto, sugerindo que está falando[cite: 5]. Um crachá de identificação laranja e branco com o nome "THAIS PESSANHA" e a descrição "AGILE MASTER / SCRUM MASTER PETROBRAS" é visível em seu pescoço[cite: 5]. À sua esquerda, sobre uma pequena mesa redonda, está um livro com a capa azul e o título "dias de sol" em letras grandes e coloridas, com uma ilustração de sol e pássaros[cite: 5]. O fundo é um painel liso em tons de cinza e azul claro, com iluminação uniforme[cite: 5].

Em 2024, tivemos um palco dedicado à temática, a Arena da Diversidade. Em 2026, a discussão estava no primeiro dia do evento, na plenária central!

Pode parecer apenas uma mudança de lugar.

Mas não é.

Porque o lugar onde uma pauta é discutida também revela o lugar que ela ocupa nas prioridades de uma indústria.

E, talvez, o maior significado daquele momento tenha sido justamente este: a deficiência deixou de ser tratada como uma pauta de um grupo específico e passou a ser discutida como uma questão que diz respeito à indústria inteira.

Afinal, estamos falando de pessoas.

E pessoas estão em todos os lugares.

Por que estourar a bolha importa?

Ainda é pouco questionada a ausência de pessoas com deficiência nos espaços de liderança.

Quando uma pessoa com deficiência chega a uma posição de destaque, muitas vezes sua presença é tratada como uma exceção. Como uma história extraordinária.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

por que ela ainda é uma exceção?

Fui a primeira gerente corporativa de Diversidade, Equidade e Inclusão da história da Petrobras. E fui essa profissional sendo uma mulher com deficiência.

Não cheguei ali para representar a deficiência.

Cheguei porque tinha formação, experiência, trajetória profissional, capacidade de gestão e conhecimento sobre o negócio.

Tenho Osteogênese Imperfeita, uma doença rara. Existem características do meu corpo que impõem determinadas limitações.

Mas isso não determina minha capacidade de produzir, minha criatividade, minha capacidade de liderar ou minha competência profissional.

O que frequentemente determina até onde uma pessoa com deficiência consegue chegar são as barreiras que aparecem no caminho.

Uma tecnologia incompatível com uma tecnologia assistiva. Uma plataforma inacessível. Um ambiente que impede a circulação. Uma reunião sem os recursos necessários. Um processo seletivo que não considera diferentes formas de participação.

Ou, talvez a barreira mais difícil de perceber: o julgamento antecipado sobre aquilo que alguém seria ou não capaz de fazer.

É por isso que precisamos diferenciar a limitação que pode existir no corpo de uma pessoa da limitação que o sistema produz.

E quem teve a oportunidade de mostrar o que sabe?

Essa discussão também me fez pensar sobre desenvolvimento de carreira.

Se uma pessoa nunca recebeu o projeto que gera visibilidade, a missão que gera experiência ou o erro que gera aprendizagem, com base em quê concluímos que ela não está pronta?

Existe uma diferença enorme entre não ter feito algo e não ser capaz de fazer algo.

Eu só cheguei a assumir uma gerência porque, em determinado momento, alguém me deu a oportunidade de liderar uma equipe de 30 pessoas. Depois, assumi formalmente uma coordenação.

Eu não tinha aquela experiência no currículo.

Eu passei a ter porque alguém me deu a oportunidade de construí-la.

O que hoje aparece no currículo como experiência, ontem foi uma oportunidade.

Por isso, talvez uma liderança não deva olhar apenas para quem já está pronto.

Deva também enxergar quem pode se tornar pronto se tiver a oportunidade certa.

E essa responsabilidade não termina em oferecer treinamento.

Existe algo que nenhum programa corporativo consegue substituir completamente: mentoria.

Compartilhar repertório, abrir redes, dar feedback, dividir experiências, contar erros e ajudar alguém a desenvolver autonomia.

Não para formar cópias.

Mas para que o outro encontre sua própria forma de liderar.

Talvez o verdadeiro legado de uma liderança seja justamente criar condições para que outras pessoas possam ir além dela.

A acessibilidade precisa sair da exceção

Tudo isso nos leva à acessibilidade.

Ela não pode ser um capítulo separado da estratégia de uma organização.

Precisa estar na forma como contratamos, desenvolvemos pessoas, desenhamos tecnologias, construímos ambientes, comunicamos e tomamos decisões.

Mas existe uma dimensão ainda mais difícil de transformar: a acessibilidade atitudinal.

Podemos ter uma rampa, uma tecnologia acessível, uma legenda, uma adaptação.

Mas, se a atitude continuar dizendo “essa pessoa não vai conseguir”, a barreira continua existindo.

Por isso, representatividade importa.

Mas não basta colocar alguém na fotografia. Precisamos transformar os processos que definem quem chega até ela.

É por isso que aquele momento na ROG.e foi tão significativo para mim.

Porque quando uma pauta que historicamente esteve restrita a espaços específicos chega ao centro da indústria, ela ganha visibilidade, legitimidade e, principalmente, a possibilidade de provocar perguntas que precisam ser feitas por todas as pessoas.

Não apenas por quem trabalha com DEI.

Não apenas por quem tem uma deficiência.

Por todas e todos nós.

Talvez seja esse o verdadeiro significado de estourar a bolha.

Não precisamos de uma indústria que aprenda a incluir pessoas diferentes.

Precisamos de uma indústria que seja construída, desde o começo, considerando que as pessoas são diferentes.

E talvez saibamos que viramos o jogo quando uma pessoa com deficiência entrar em uma sala e a primeira pergunta não for:

“Será que ela consegue?”

Mas:

“O que precisamos transformar neste ambiente para que ela possa participar, contribuir, liderar e transformar?”

A deficiência pode fazer parte da minha história, mas não precisa determinar o tamanho do meu lugar no mundo.

O que determina esse lugar também são as oportunidades, os ambientes e os sistemas que construímos.

E, quando a acessibilidade deixar de depender da boa vontade de alguém, talvez possamos dizer que, finalmente, a pauta deixou de estar na bolha — e passou a fazer parte da indústria que todos nós estamos construindo.

Imagem com fundo azul-escuro dividida em duas partes. À direita, foto de Thais Pessanha, uma mulher de cabelos escuros e compridos, sentada numa cadeira de rodas. Ela usa um casaco escuro, máscara de proteção azul-clara e segura um microfone com a mão direita, falando num evento. Ao peito, traz um crachá com o nome "THAIS PESSANHA" e "PETROBRAS".

À esquerda, em letras brancas e em destaque, está a citação: “A gente não tem que perguntar se a pessoa com deficiência tem capacidade de assumir esse cargo de liderança, mas que barreira tenho que tirar para que essa pessoa possa trabalhar e produzir como todo mundo.”

Logo abaixo do texto, lê-se o nome "THAIS PESSANHA" em laranja e o cargo "Agile Master e Professional Scrum Master da Petrobras" em branco.

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