Eu não sou PCD

Texto de Ana Prado

Eu abomino a sigla PCD.

E talvez seja preciso explicar por quê.

PCD é usada como abreviação de pessoa com deficiência. Eu sei. Sei também que pessoa com deficiência representa uma mudança importante na maneira de compreender a deficiência. A pessoa não se resume à deficiência.

É justamente por isso que a sigla me incomoda.

Antes de chegarmos a PCD, passamos por outras formas de nomeação.

Fomos chamados de deficientes.

Durante muito tempo, a deficiência aparecia como aquilo que definia a pessoa. Não havia uma pessoa que tivesse uma deficiência; havia o deficiente.

Depois vieram portador de deficiência e pessoa portadora de deficiência. A tentativa era deslocar a deficiência para uma característica que a pessoa carregava. Mas a própria palavra portador sugeria algo que se leva consigo, quase como um objeto.

Também circulou pessoa com necessidades especiais. A expressão procurava afastar uma linguagem diretamente centrada na deficiência, mas acabava produzindo outra ideia de excepcionalidade: algumas pessoas seriam aquelas que possuem necessidades especiais.

Essas denominações não se sucederam de maneira perfeitamente linear. Circularam, coexistiram e foram utilizadas em diferentes períodos e contextos. Mas há, nesse percurso, uma transformação importante.

Pessoa com deficiência.

A expressão coloca a pessoa antes da deficiência.

E isso importa.

Muito.

Ela não diz que a deficiência desapareceu. Diz que ela não esgota aquilo que alguém é.

É justamente nesse ponto que PCD me provoca.

Porque, quando transformamos pessoa com deficiência em três letras, a palavra pessoa desaparece.

Sei que ela continua contida na sigla.

Mas uma palavra contida não é uma palavra dita.

E a linguagem não é apenas uma ferramenta para economizar espaço.

Michel Foucault nos ajuda a compreender que nomear, classificar e organizar sujeitos não são atos neutros. As classificações participam das formas pelas quais os sujeitos são reconhecidos, organizados e administrados pelas instituições.

É por isso que não considero essa discussão uma simples questão de preferência linguística.

Quero reconhecer a deficiência, garantir direitos, construir políticas públicas, produzir dados sobre desigualdades e exigir instituições preparadas para assegurar participação e acessibilidade.

Mas não quero que nenhuma dessas necessidades transforme pessoas em siglas.

O próprio Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mantém oficialmente a expressão “pessoa com deficiência” na denominação de sua Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e em suas publicações. Ao mesmo tempo, a sigla PCD aparece em diferentes documentos e espaços institucionais do próprio Estado.

Essa coexistência deveria nos fazer pensar.

Porque talvez tenhamos nos acostumado demais a abreviar aquilo que é complexo.

A categoria é conveniente.

Cabe no formulário.

Cabe na planilha.

Cabe na estatística.

Cabe no relatório.

A pessoa, não.

A pessoa tem nome.

Tem história.

Tem contradições.

Tem desejos.

Tem conhecimentos.

Tem uma vida que não cabe em nenhum campo de formulário.

Por isso, minha crítica não é dirigida a quem usa PCD. Não atribuo uma intenção a quem escreve a sigla. Questiono algo maior: a naturalização de uma linguagem que transforma uma expressão que nasceu para recolocar a pessoa no centro em uma abreviação na qual a pessoa deixa de aparecer.

Eu não quero outra sigla.

Não quero três letras melhores.

Quero a expressão inteira.

Pessoa com deficiência.

Não porque precise repetir palavras por princípio.

Mas porque algumas palavras não deveriam ser economizadas.

Pessoa é uma delas.

A deficiência faz parte da minha vida.

Mas não é a minha vida inteira.

Eu me recuso a aceitar que três letras façam por mim aquilo que nenhuma palavra deveria fazer: dizer quem eu sou.

Talvez a pergunta não seja por que eu abomino PCD.

Talvez seja outra:

O que nos incomoda tanto na palavra pessoa que precisamos escondê-la dentro de uma sigla?

E se a inclusão exige que primeiro transformemos pessoas em categorias para depois reconhecê-las como sujeitos de direitos, talvez precisemos perguntar:

Que tipo de inclusão estamos construindo quando a pessoa precisa desaparecer para caber na linguagem que pretende incluí-la?

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