Mulher de 102 anos se arrisca em meio às pedras

Trechos de ruas não pavimentadas trazem transtornos aos moradores do Bairro Santa Cruz, região oeste de Cascavel. Dificuldades que tornam tarefas do dia-a-dia cada vez mais complicadas. Idosos e pessoas com deficiências sofrem pela falta de infraestrutura.
Pedras soltas em um trecho da Rua Coroados inibiram os passeios da aposentada Ana Tomé. Com 102 anos de idade, esbanja saúde e disposição, mas, após cair quatro vezes sobre o cascalho e se ferir, ela decidiu permanecer em casa. “É escorregadio. Somente saio de casa quando preciso me consultar. Mas gosto de fazer visitas. Sempre vou à casa das minhas irmãs”.
Num pequeno barraco de madeira, a idosa mora há décadas. Divide o espaço com um filho, que sempre a acompanha. Quando veio a Cascavel ela dedicou a força ao trabalho de boia-fria. “Ajudava nas roçadas. Hoje está tudo muito diferente, Cascavel está mais bonita. Sempre fui pobre demais, mas isso nunca foi problema”.
Valetas com quase dois metros de profundidade foram provocadas pela água da chuva nas quadras sem pavimento da Rua Suyas. A situação se agrava para quem tem deficiência física. A dona de casa Edinalva Olímpio dedica a vida para a criação de um filho de 30 anos que não tem movimento nas pernas. Três vezes por semana ela percorre 15 quadras empurrando a cadeira de rodas para que ele não perca o tratamento de fisioterapia. Metade do trajeto é em estrada de chão. “Vou sempre a pé. Não temos carro e o ônibus demora a passar. Levo 20 minutos empurrando a cadeira. Não aguento mais de dor nas costas”, confessa.

LIGAÇÃO
Condições de pinguela geram reclamação
Uma pinguela improvisada com toras de madeira divide a Rua Tamoios, entre os Bairros Santa Cruz e Alto Alegre. Algumas tábuas caíram com a falta de manutenção. Sem proteção alguma, os pedestres se arriscam para cortar caminho. “Antes faziam limpezas aqui. Mas agora ninguém aparece mais. Vou começar a roçar, mas sozinho não consigo limpar tudo”, reclama Gênesis Teixeira Batista, aposentado.
No fundo de vale, onde passa o Córrego Bezerra, moradias foram erguidas irregularmente. Lixos despejados nas ruas param na água.
Dependentes químicos usam o matagal como refúgio para satisfazer o vício. “É muito perigoso, evito sair de casa quando escurece. Muitos desocupados ficam ali por perto”, lembra Ana Maria Winck, dona de casa, que mora há 30 anos na Rua Tamoios. Desde então aguarda a pavimentação da via.
Aos 67 anos, Gênesis Teixeira Batista, mineiro nascido em Fidelândia, não se cansa de batalhar por melhorias na rua. Pai de 17 filhos, com idade entre cinco e 26 anos, acompanhou o desenvolvimento do lugar. “Trabalhei muito para os outros. Fazia roçadas em uma empreiteira. Tem muita coisa para se fazer aqui, mas gosto de onde vivo”, diz Genêsis.
A Rua Krahos é uma das poucas com pavimentação completa. “Aqui me parece ser muito bom. Vim em busca de oportunidades, sou do Mato Grosso. Quero trabalhar. A minha mãe já mora aqui há cinco anos e acha bem seguro”, diz Gérlis Oliveira, autônomo.

O QUE ACHA DE SUA RUA?
“Moro na Rua Suyas há 28 anos. O problema é a falta de asfalto. A situação está ruim hoje, mas já foi bem pior. O meu pai arruma como dá a frente de casa, senão a valeta já tinha tomado conta, porque a faz um ano que a prefeitura não passa a patrola aqui. Mesmo com os reparos, para entrar em casa hoje temos de vir da esquina beirando o muro ou passar da casa, ir até o vizinho de cima e depois voltar por onde deveria ser a calçada”
Sandro Perin, mecânico industrial

“Como sempre, o problema da Rua Tamoios é a falta de asfalto. Eles [prefeitura] passaram a patrola aqui essa semana, mas fizeram um serviço muito ruim, se pelos menos colocassem cascalho, deixassem bem arrumado… Outro problema é que a terra que tiraram na rua foi jogada em um terreno baldio que os moradores da rua mantêm limpo. Dali, a terra vai para o bueiro e depois dizem que é o povo que entope bueiro. A gente vota esperando que vai mudar e nada acontece. Até aceitamos pagar pelo asfalto”
Valéria Maceió, dona de casa

“Estamos há cinco anos na Rua Krahos e logo que mudamos começaram a fazer o asfalto. No começo era horrível, para entrar em casa tínhamos que vir beirando o muro da vizinha e quando chovia a enxurrada descia levando tudo o que encontrava pela frente. Com o término do asfalto valorizou muito a rua. Gostamos muito de morar aqui, temos uma vista privilegiada da cidade, durante a noite é lindo. Também tivemos um problema com um poste de iluminação pública, mas de tanto ligar no 156 eles vieram arrumar”.
José Carlos de Oliveira, encarregado de manutenção

Percurso
As quatro ruas são paralelas entre si e com a Avenida Brasil. Elas estão localizadas no extremo norte do Bairro Santa Cruz e permitem a travessia de leste a oeste. A Rua Tamoios é a única rua cujo percurso segue para outro bairro. Após a Rua Xavantes, a via segue por mais três quadras no Bairro Alto Alegre, terminando na Rua Antonio José Elias.

ÍNDIOS
Homenagens às tribos e termos indígenas
Como características do Bairro Santa Cruz, as quatro ruas desta edição se referem a tribos indígenas e a dois termos usados para identificar os índios. A Krahô habita o Tocantins e, segundo a Funasa, sua população é de 2.184 índios. Os integrantes dessa tribo têm bastante contato com o não-índio, cuja relação já dura dois séculos. O histórico dos Krahô é marcado por reviravoltas entre sua origem e o mundo “civilizado”.
A tribo Suyá vive em duas aldeias no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, e subsistem de caça, pesca e agricultura. Na década de 1950 os Suyá eram temidos por outros grupos indígenas, mas com o tempo foram se miscigenando e já dominam a língua portuguesa.
Tamoio não se refere a uma tribo específica, mas à aliança de povos que falavam a língua tupi e habitavam os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As tribos que compunham o grupo dos tamoios eram Tupinambá, Guaianares, Aimorés e Temiminós.
Coroados é um termo instituído pelos portugueses para se referir aos índios de determinadas filiações linguísticas ou regiões geográficas. Sua origem veio do hábito de tais tribos usarem coroas de pluma na cabeça. Os coroados são os caigangues, de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, os caiapó, bororo, coropó, puri e xerente, do norte do Mato Grosso.
Na grafia dos logradouros, há algumas divergências em relação ao nome correto da tribo. Na lei, as Ruas Suyas e Kraho estão diferentes dos termos originais, Suyá e Krahô.

Fonte: http://www.jhoje.com.br/14042009/local.php

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