Intervenção poética “PCD sem BPC”

Durante o encerramento da Cúpula da América Latina e Caribe sobre Deficiência, no dia 11 de dezembro, Thiago Odara, integrante da Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas, fez uma intervenção poética chamada “PCD sem BPC”.

Confira abaixo a a fala de Thiago Odara na íntegra:

“Sou corpo PCD
Corpo lgbt
O corpo que muitos fingem não vê
Nem é sobre deficiência visual
É a seletividade que define qual corpo tem valor e potencial

Esse corpo não é o meu
De mim esperam o silêncio
Quem faz nosso corpo de invisível
Não é PCD
É quem enxerga muito bem
Muitas vezes nem miopia tem

O corpo PCD que já é marginalizado
A necessidade de falar de política e pedir acordo internacional
Pra ver a gente como ser humano igual

Que bom poder fazer
Quem tem visão mas não quer ver
Quem tem audição e não quer escutar

Parar agora pra ver e escutar
nossas pautas e o que a gente falar

Nossos gritos que ainda pede o básico da vida
Pedindo aqui por educação
Com criança PCD com acessos negado nas escolas
Querem a gente até mesmo sem alfabetização

Trabalho? quando conseguimos, é favor que nos dá
Quando nos dá
Não tamo no mundo vivendo igual
Somos corpo marginal

Das mudanças climática
Que nem é corpo dissidente

que causa
Embora seja gente

que gera a causa

São os corpos dissidentes que morrem primeiro

Em cada catástrofe ambiental
Onde tá acessibilidade e apoio pro corpo PCD mais marginal?

Mas nem tem como falar de tudo isso sem falar de proteção social
Mas proteção social
é contexto amplo
Querem tirar direitos garantido de nós e constitucional

O corpo PCD que já é marginalizado,
Na luta por direitos,
um grito sufocado,
Dizem que não temos capacidade de falar por nós
Querem a gente tudo calado

Dos pentes finos que passam tirando benefício que nem é benéfico é reparação de mundo desigual
Novas colocações do BPC
Parece surreal
que deixa corpo negro, periférico trans e PCD
Sem comida na mesa pra poder comer

Do BPC cês querem tirar de milhares da gente
Em pente fino que diz ser tirar possíveis fraudes

O pente fino que funciona como pra tirar piolho,
Tira quem a sociedade vê como um escolho.

O negro pobre malandro
a pessoa trans que cês evitam até tocar
Os estereótipos racistas e transfóbicos que insistem em perpetuar.

Mas na realidade cruel e dura,
O pente fino passa matando quem
Por necessidade e pobreza
Nem dinheiro pro básico tem

Chega a policia com suas armadura
Corpo negro é morto
Por roubar um sabão.

A burocracia no processo pro BPC é humilhante, burocrático, causa até gatilhos
Mas não importa como tratam corpos dissidentes
Muitos da gente
Tbame são PCD
mas não temos dinheiro nem pra escovar os dentes

somos alvo de deboche e negligência
em perícia que dá pessoa que tem visão e sem nenhuma deficiência

nem olham no rosto da gente.

Não existe espaço pra pobre faminto fraudar BPC
A gente só quer ter moradia e o que comer

Com regras que da mulher que sofre violência doméstica mas no papel é casada
Não tem nem dinheiro pra pagar o divórcio
Que piada

Com dor, medo e suor
Conseguiu morar sozinha sem ser mais espancada
Mas querem contar a renda do marido pra decidir se a mulher pobre pode comer e ela tem que aceitar calada
Possivelmente, adoecida na mente
De trabalhar impossibilitada
ou que de tanto do marido apanhar se tornou uma PCD

Depender do seu abusador
seu direito de viver?

Imagina só, determinar em uma perícia qual corpo PCD consegue trabalhar
Mesmo com diagnóstico escrito as vulnerabilidade
Além de que muites de nós não consegue nem na cidade circular

As ruas com buraco, muito barulho, luz extrema.
Pessoas com deficiência nem circula direito na cidade.
Isso na parte central
Não tem rampa nas parte centralizada
Cê jura que tem rampa lá nas quebrada?

Vai sair pra trabalhar ou pra fazer qualquer coisa como?
Tem várias formas de fazer uma vida ceifada

E de autista que tem crise com tanto estímulo e falta de acessibilidade
Tentam tirar até nossa dignidade

Mas o pente fino do BPC quer fazer a gente de fome morrer

PCD não quer mamar na teta de governo
A gente quer ter comida de verdade

na mesa pra gente comer.

Segurança, educação, cadê a proteção?

Onde tava tudo isso pra salvar a vida de Thainara?

Dos impostos abusivos dos bancos que cobram juros desproporcional de quem já vive com renda mínima
E os bancos coagindo PCD fazer empréstimo
A fome se torna ainda mais desproporcional

No desespero da fome e por banco coagido
Você pega empréstimo e aí?
Salário mínimo pela metade passa a ser recebido

Essas medidas ninguém passa pente fino
O pente fino no corpo mentalmente adoecido é pasado
Aquele lá que foi colocado
dentro da viatura com gás pra morrer ser ar,
Mentalmente adoecido
pela cor da sua pele foi condenado

e de muitas PCD negras que são brutalmente assassinada

A maior parte de quem recebe BPC não tem a minha cor

Embora meu demarcador
De ser corpo transgênero me deixa também mais as margens
Brasil país que mais mata corpo trans
Violência quando não mata pode fazer pessoa sem deficiência, se tornar também PCD
Mas isso quem enxerga finge não vê

E do corpo negro que é jogado da ponte pela polícia
Violência policial quando não mata
Também pode fazer desse corpo
Se tornar PCD
Mas corpo negro todo dia é ceifado
Passa despercebido pra quem tem visão mas escolhe não ver

Cês querem falar de proteção de corpo com deficiência?

Retirem Sônia Maria de Jesus da mão dos seus algozes
Que aqui no Brasil justiça achou que era melhor a mulher negra e PCD ficar na escravidão
com STJ dando sua autorização
Mas das medidas que nos dão direito a vida não tem pente fino no genocídio.

queremos a aprovação do PL
que tira o valor abusivo
de quem recebe salário com super faturação
Não pente fino que tira vida dos corpos negros trans e do corpo de PCD
que sem o BPC
não consegue nem ter o que comer

Vamo passar pente fino no genocídio
Não no corpo que já não tem acesso ao básico
E decreto determina pelo governo nosso homicídio

O pente fino deve ser agindo na justiça pra ter de Sônia a sua libertação

Queremos a nossa proteção social

Nosso direito de educação?
como estudar sem ter onde morar
Com prato vazio com barriga que grita no peito de fome

enquanto o barulho do coração diminui…

Até não bater mais.

De fome, medo, sem moradia
Queremos direito a equidade sem hierarquia

Falo nitidamente aqui
Pra cada pessoa que vai nosso grito ouvir

Por favor, dos direitos da população negra e pobre
E a população trans que até de forma literal, arrancam do nosso peito nosso coração.
Não é analogia, arrancaram de verdade um órgão do peito de forma nua e fria
Isso é adoecedor e surreal
Mais o país Brasil é o que mais mata pessoas trans
Mas contra a transfobia não tem pente fino.

intersecção PCD existe

Não é atoa nem no acaso que a maior parte da população
De pessoas com deficiência no Brasil pessoas negras são.

Cansei das pautas PCD ser o etcetera
E o primeiro a ser cortado a verba

Pra tirar o Brasil do vermelho não pode ter sangue que já é derramado
Usado pra assinar decreto que fará nosso corpo de fome ser exterminado

Por educação, alfabetização e pela proteção social
Queremos ter moradia,
andar na rua sem medo, e ter um prato de comida e poder comer um pão

Beber água, mais água, água, água sem parar ou dormir dormir, dormir e dormir pra fome diminuir
Ou dormir pra sempre sendo suicidado
Quando acontece isso
Que não nem são casos isolado
Chamam de surto, patologia,
O desespero de ver vc e seu filho sem comida e moradia

Já chega disso.

Por favor, não tirem o direito da gente viver mais não.”

Thiago Odara

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