Boca no Mundo: Palavra e Resistência

Texto de Ana Prado

Escrevo para tornar visível o que muitas vezes é ignorado: o capacitismo cotidiano, a invasão de corpos e a exclusão de direitos básicos. Minha experiência não é isolada, e falar é um ato de resistência.

Antes da palavra, veio o toque.
Antes da cerimônia, veio a violência.

Na quinta-feira passada participei da abertura de um evento público, repleto de discursos, aplausos, autoridades e expectativas. Tudo parecia cuidadosamente arquitetado para celebrar projetos, agendas e promessas de cidade. Mas, antes mesmo que eu me sentasse, vivi a fratura mais antiga: o capacitismo que atravessa corpos como fissura que nunca cicatriza.

Logo ao entrar no espaço, uma integrante da organização agarrou meu braço sem dirigir a mim uma única palavra. Eu caminhava acompanhada da amiga que me guiava; ainda assim, ela ignorou essa presença e avançou sobre o meu corpo. Tirei meu braço uma vez. A mão voltou. Tirei de novo, mais firme. Ela retornou e apertou meu pulso, como se precisasse garantir que eu não escapasse. Um aperto que não era apoio, não era gentileza, era controle.

Mesmo que tivesse segurado meu pulso com leveza, ainda seria violência — sempre violência. O problema não é a força. É que aquela mão não tinha direito de tocar meu corpo. Ela não me conhecia, não me dirigiu a palavra, não perguntou se eu queria ajuda ou como desejava ser ajudada. Apenas decidiu por mim, como se meu corpo estivesse disponível para qualquer gesto que considerasse adequado. Violência não se mede pela intensidade da pressão, mas pela ausência de consentimento.

Quando, tentando me encaixar numa cadeira, ela começou a me girar como quem reposiciona um objeto, eu disse: “Tira a mão de mim, eu não sou de cristal.” Foi só então que meu corpo se tornou visível como sujeito. Ela me pediu desculpas, mas num tom indignado, ofendida porque eu havia traçado um limite. Como tantos opressores, reagiu não à violência cometida, mas à inconveniência de ser confrontada.

E essa cena certamente foi vista por algumas pessoas. Como tantas vezes acontece, é provável que tenham me julgado exagerada, grossa, inconveniente. Provável que tenham prestado sua solidariedade silenciosa à agressora, não à pessoa violentada. É sempre assim: a mão que invade recebe compreensão, e o corpo que resiste recebe julgamento. A solidão política de ser pessoa com deficiência se revela nesses instantes, quando quem diz não vira problema e quem invade vira cuidador injustiçado. A plateia naturaliza o crime e se apressa em proteger quem o comete.

Naquele instante, experimentei na pele a tutela que a teórica Simi Linton descreve: invasão disfarçada de cuidado, controle travestido de gentileza. Foi exatamente isso que me atravessou: o gesto silencioso que toma posse, que estabelece hierarquia, que confunde invasão com gentileza.

Depois de me sentar, ainda reorganizando a respiração e o eixo após aquela invasão, percebi outra fissura estrutural: não havia audiodescrição. Havia intérprete de Libras, e isso importa, mas acessibilidade comunicacional não é fragmento. Assim como meu corpo foi tomado sem permissão, meu direito de ver e entender o mundo também era negado. A Lei Brasileira de Inclusão, Lei 13.146/2015, determina que eventos públicos e privados garantam acesso pleno à informação.

Audiodescrição é tradução de imagens em palavras. É o que me permite estar dentro da cena, dentro do mundo. Não pode ser improvisada, porque improviso falha, cansa e exclui. Minha amiga tentou descrever partes do que acontecia no palco, mas nenhum esforço individual substitui o que deve ser garantido por estrutura, planejamento e responsabilidade institucional.

Foi então que a fadiga de acesso me atingiu, termo dos estudos da deficiência que nomeia o cansaço e o esgotamento produzidos pela repetição de barreiras. Não é apenas desgaste físico; é a exaustão de disputar, repetidas vezes, direitos que deveriam ser óbvios. Senti dor de cabeça, mal-estar, o corpo inteiro pesado, como se cada gesto de exclusão abrisse mais uma fissura, pequena, mas profunda.

No meio da grandiosidade oficial, lembrei de Clarice Lispector e da sensação de ser estrangeira até dentro da própria pele. Era isso: eu ali, presente, mas tratada como se meu corpo fosse outro, como se eu ocupasse um lugar para o qual não fui considerada.

Acessibilidade não é favor, não é gentileza, não é concessão. É direito, política pública, dever institucional, fundamento democrático. É o mínimo para que qualquer pessoa participe de um espaço sem ter seu corpo invadido ou seus sentidos interditados.

Por isso escrevo, por isso falo, por isso ponho a boca no mundo. Porque o silêncio protege quem invade, e a palavra protege quem resiste. Porque meu corpo é meu, e não está disponível para ser puxado, apertado ou girado sem consentimento.

A fotografia é um retrato de meio corpo de Ana Prado. Ela é uma mulher de pele clara e cabelos curtos, levemente ondulados, em um tom castanho-avermelhado.

Ana está radiante, com um sorriso largo e espontâneo (uma gargalhada), olhando para a lateral direita, sem encarar a câmera. Ela usa brincos pendentes com uma pérola na ponta.

Ela veste uma camiseta de malha na cor rosa. No peito, há uma estampa grande de uma borboleta cujas asas têm padronagem de animal print (oncinha) em preto e branco, com detalhes que parecem pequenas pérolas no corpo da borboleta.

Continuarei falando, para que ninguém diga que não sabia, para que ninguém possa fingir que não viu. Existir não é pedir licença, falar é existir, existir plenamente é resistir, reivindicar, afirmar, ocupar, romper, exigir, libertar, transformar, existir plenamente é resistir e transformar o mundo.

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