Texto de Rita Louzeiro*
Durante décadas, a imagem de uma peça de quebra-cabeça foi usada para nos definir. Mas o que acontece quando o símbolo escolhido para representar um grupo carrega o peso do “faltante”? O quebra-cabeça nasceu de uma visão que via o autismo como um mistério isolado, uma peça que não se encaixava ou que precisava ser “solucionada” para que o quadro ficasse completo.
Nós não somos um problema a ser resolvido. Somos uma existência a ser celebrada.
A Fluidez do Infinito
A transição para o laço do infinito colorido marca o fim da era da “peça perdida” e o início da era da neurodiversidade. O infinito não tem começo nem fim; ele representa a continuidade. No espectro autista, essa fluidez é essencial. Não existem graus de “mais” ou “menos” autista em uma linha reta, mas sim uma constelação de características — sensoriais, motoras, sociais e cognitivas — que se manifestam de formas únicas em cada indivíduo.
O Arco-Íris da Singularidade
As cores do infinito não estão ali apenas pelo brilho. Elas representam o espectro. Cada tonalidade é uma voz, uma forma de processar o mundo, uma identidade que se entrelaça com outras. No contexto da nossa luta por inclusão, o colorido também evoca a interseccionalidade: o autismo atravessa raças, gêneros e classes de formas distintas, e o símbolo do infinito acolhe todas essas nuances sem tentar encaixá-las em um molde rígido.
Por uma neurodiversidade interseccional
Adotamos uma postura alinhada ao Sul Global, revisitamos o conceito de neurodiversidade pelo viés do nosso contexto. Ser autista no Brasil requer que esse modelo seja complementado por elementos que o tornem aplicável aos nossos modos de ser e viver. Por isso, adotamos a interseccionalidade como elemento de conexão entre o conceito importado e as nossas demandas. Assim, interseccionando os conceitos, vamos também interseccionalizar as lutas.
Reclamar a Própria Imagem
Mudar o símbolo é um ato de soberania. Quando o movimento de pessoas autistas escolhe o infinito, ele está dizendo ao mundo:
“Nós definimos quem somos. Não somos um mistério para os outros; somos uma pluralidade para nós mesmos.”
O quebra-cabeça sugeria isolamento. O infinito sugere conexão. Ao adotarmos essa nova simbologia, reafirmamos nosso compromisso com uma sociedade onde a diferença não seja vista como um vácuo, mas como a própria substância que compõe a beleza do todo.
O futuro é neurodivergente, contínuo e profundamente colorido.
*Rita Louzeiro é pedagoga, audiodescritora, designer gráfica e consultora em acessibilidades