Entre o ruído e a margem

Texto de Ana Prado

Eu entro na festa como quem entra num espaço que não foi feito para ser lido com o corpo que tenho. A música pulsa, as vozes se cruzam, cadeiras se arrastam, copos tilintam — tudo acontece, mas não necessariamente comigo. Reconheço poucos nomes, poucos timbres familiares. O resto é um emaranhado sonoro, onde cada circulação exige intermediação.

As pessoas chegam, se abraçam, se beijam, circulam. Há um fluxo contínuo de corpos que sabem para onde ir — ou que podem, ao menos, errar com leveza. Eu não erro com leveza. Para mim, cada passo pede cálculo, cada desvio pede leitura prévia do ambiente. Não por falta de desejo, mas porque o lugar não sustenta meu trânsito com autonomia.

A mesa torna-se âncora e limite. Nela, a comida e a a bebida aparecem — quando aparecem — como oferta e contenção. Comer e beber são, ao mesmo tempo, possibilidade de participação e estratégia de permanência. Às vezes, nem isso chega. Enquanto isso, a festa se reorganiza: risadas se afastam, músicas mudam de direção, grupos se formam e se desfazem. A pista de dança existe — mas não necessariamente como um lugar acessível.

Não é vontade que falta. É condição.

Dizem que a festa é encontro. Mas encontro pressupõe caminhos. Pressupõe poder ir, voltar, perder-se sem risco. Pressupõe autonomia. Sem isso, o encontro se torna contemplação — assisto ao que acontece, quando consigo, mediada por sons, interrupções, aproximações breves que não se sustentam.

E, quando a música aumenta, algo mais se rompe.

A conversa desaparece. Quem enxerga ainda se apoia em gestos, olhares, leitura de lábios. Eu não tenho acesso a esses apoios. O que para outros ainda é troca, para mim vira ruído. Nesse momento, não é apenas a circulação que falha — é a própria possibilidade de estar com o outro.

Permanecer, aqui, não é escolha plena. É negociação com o ambiente. É transformar presença em permanência imóvel. É fazer do corpo um ponto fixo num espaço que valoriza o movimento.

Há quem veja alguém “mais quieta”, “mais reservada”, “talvez tímida”. Há quem elogie a “tranquilidade”. Mas o que se chama tranquilidade, muitas vezes, é restrição. O que se lê como perfil é condição. O que se interpreta como preferência é estrutura.

Os espaços organizam comportamentos antes mesmo de qualquer intenção consciente, como aponta Michel Foucault. Distribuem possibilidades, definem fluxos, silenciam certos modos de estar. Quando um corpo não acompanha o ritmo esperado, não se lê a barreira — lê-se a inadequação.

Mas integrar-se a quê?

A uma coreografia que pressupõe visão para localizar pessoas, reconhecer gestos, antecipar movimentos. A um ritmo em que circular é simples, em que dançar é apenas decidir, em que se aproximar não exige cálculo do terreno. A uma festa que não se anuncia para mim — não chama, não guia, não devolve sinais suficientes para que eu me mova com autonomia.

Nem todos os corpos têm as mesmas condições de aparecer plenamente no espaço social, como propõe Judith Butler. Alguns são sustentados por ele; outros precisam negociar sua própria legibilidade a cada instante. Na festa, isso se traduz em presença parcial — estou, mas não circulo; participo, mas não transito; existo, mas não me expando.

Há um cansaço que se acumula.

Depender de alguém para levantar, atravessar, dançar. Calcular o pedido, medir o momento, evitar interromper o fluxo dos outros. Transformar o cotidiano mais simples em pedido.

E há também o antes.

Muitas vezes, quando alguém convida, eu digo que não vou. Não por desinteresse, mas porque já conheço as condições. Sei que vou precisar medir trajetos, pedidos de ajuda, possibilidades reais de acesso — até mesmo a chance de conseguir conversar.

E, quando explico, nem sempre compreendem.

Há quem insista, quem diga que estou exagerando, quem interprete a recusa como afastamento, desatenção ou falta de vontade. Como se bastasse querer para participar. Como se o esforço invisível de estar nesses espaços pudesse ser ignorado simplesmente porque não aparece para os outros.

Por isso, muitas vezes, eu não vou.

Antes mesmo de começar, já sei o tamanho do esforço necessário para acessar o mínimo. E, no fim, esse esforço desaparece diante dos olhos alheios. O que permanece visível é apenas alguém que “não quis aproveitar”.

A festa segue.

E eu sigo também — por outras rotas, outros encontros, outros espaços onde o corpo não precise pedir licença para se mover. Porque alegria não é só intensidade sonora. Alegria também é poder chegar, circular, encontrar, perder-se e voltar — e conseguir sustentar uma conversa sem desaparecer no ruído.

Do meu lugar, eu ainda escuto a música.

Ela vibra no chão, atravessa o ar, encosta nas mesas.

As pessoas riem, se chamam, dançam — algo acontece ali, continuamente.

Eu estou ali.

Mas há uma distância que não se mede em metros.

Ela se faz no caminho que não se abre, na conversa que se perde, no gesto que não chega.

E é nesse intervalo — entre estar e conseguir — que a festa acontece sem mim.

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