Texto de Ana Prado
Escrevo para não sufocar.
Há pessoas que me chamam de nervosa porque nunca precisaram sobreviver ao desgaste de serem constantemente atravessadas.
Dizem que me falta paciência.
Mas quase ninguém pergunta quantas vezes precisei suportar invasões diárias disfarçadas de normalidade.
Quantas vezes decidiram por mim.
Falaram comigo como se eu fosse incapaz de compreender o mundo.
Tocaram meu corpo sem consentimento.
Me ignoraram como se minha presença fosse um detalhe.
Quantas vezes transformaram minha cegueira numa autorização social para desrespeito, tutela e apagamento.
Então, um dia, eu reajo.
E pronto:
a história muda de lado.
A violência desaparece.
A agressão vira “mal-entendido”.
O constrangimento que me causaram passa a ser o constrangimento deles.
E eu, que apenas tentei defender minha dignidade, viro a pessoa difícil da cena.
A sociedade quase sempre protege quem atravessa e questiona quem reage.
Talvez porque exista um pacto silencioso de conforto:
é mais fácil condenar a intensidade da dor do que reconhecer a estrutura que a produz.
Paulo Freire dizia que ninguém humaniza ninguém através da opressão.
Mas pessoas com deficiência seguem sendo pressionadas a agradecer pelas migalhas de humanidade que recebem.
Como se existir já fosse um excesso.
Como se reivindicar respeito fosse grosseria.
Como se dignidade só fosse aceitável quando vem acompanhada de silêncio.
Quando uma pessoa cega se cala, dizem que ela é exemplo de superação.
Quando levanta a voz, dizem que é agressiva.
Quando suporta tudo, é admirável.
Quando impõe limites, é complicada.
Eu também queria viver com mais leveza.
Queria não precisar transformar defesa em rotina.
Há dias em que sobreviver acontece na voz, na reação, na recusa em aceitar certas violências como naturais — algo que ecoa profundamente quando Conceição Evaristo escreve: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”.
Não é a minha cegueira que cria boa parte da minha exaustão.
Muitas dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência nascem do choque entre nossos corpos e um mundo construído sem considerar certas existências, como analisa Rosemarie Garland-Thomson.
Eu reconheço isso no meu cotidiano.
Na tensão de precisar antecipar perigos.
Na invasão disfarçada de ajuda.
No constrangimento de depender de estruturas que nunca foram pensadas para me incluir plenamente.
Na dificuldade de acessar espaços, informações e deslocamentos com autonomia.
Naquilo que muitos estudiosos já chamam de fadiga de acesso: o desgaste contínuo de precisar negociar direitos básicos, autonomia e dignidade em um mundo que ainda transforma acesso em exceção.
Na forma como tantas pessoas se sentem autorizadas a invadir, corrigir, controlar ou diminuir quem foge daquilo que consideram normal.
Mas existe algo ainda mais doloroso:
o depois.
Porque muitas vezes, depois que eu reajo, eu me sinto culpada.
Me sinto mal.
Me pergunto se exagerei.
Me pergunto se deveria ter suportado mais uma vez.
E quase sempre a pessoa que me atravessou ainda se sente no direito de ficar ofendida comigo.
Ela se afasta.
Ela endurece o olhar.
Ela me ignora.
Como se a minha reação fosse pior do que aquilo que a provocou.
E o mais cruel é que, muitas vezes, eu preciso aceitar isso em silêncio.
Porque talvez eu ainda precise daquela pessoa para atravessar uma rua.
Para alcançar algo.
Para acessar um espaço que não foi pensado para mim.
Porque o mundo ainda é construído como se corpos cegos não existissem plenamente dentro dele.
E talvez uma das violências mais profundas seja esta:
precisar continuar contando com quem já nos feriu.
Muitas vezes eu atravesso tudo isso sozinha.
A dor é minha.
Ela pertence ao meu corpo, à minha história, ao meu cansaço.
Mas existem pessoas — poucas, infelizmente — que conseguem se deslocar do próprio conforto para permanecer ao meu lado.
Pessoas que talvez nunca experimentem exatamente a minha dor, mas escolhem não fingir que ela não existe.
E, às vezes, um gesto de cuidado, escuta ou acolhimento impede que a ferida se torne ainda mais pesada.
É difícil explicar o que isso faz por dentro.
O cansaço de precisar medir o tom.
De precisar parecer calma para merecer respeito.
De precisar administrar a reação do outro depois de já ter administrado a própria dor.
E nos últimos tempos eu tenho tentado absorver menos.
Tentado não permitir que cada violência ocupe meu corpo inteiro.
Tentado preservar minha saúde física e mental.
Tentado sobreviver sem transformar cada ferida numa hemorragia emocional.
Mas é difícil.
Muito difícil.
Porque ninguém passa ileso por uma vida inteira de tensão.
Existe uma diferença profunda entre ser uma pessoa intolerante e ser uma pessoa cansada de precisar se defender o tempo inteiro.
Eu não sou nervosa.
Sou alguém tentando permanecer humana dentro de uma sociedade que frequentemente desumaniza primeiro e interpreta depois.
Toda reação tem uma história.
Mas quase ninguém suporta olhar para o que veio antes dela.