Violência e autismo no Brasil: o que sabemos

e o que não medimos

Crianças com deficiência sofrem mais violência do que crianças sem deficiência. Isso está documentado em meta-análises internacionais desde 2012, e os números foram confirmados em 2022 e novamente em 2025. Quando o recorte é o autismo, as estimativas são ainda mais altas.

No Brasil, não sabemos. E não sabemos por três motivos diferentes, que este ensaio pretende separar.

O primeiro é a ausência de pesquisa. Uma revisão de escopo publicada em 2026 buscou estudos brasileiros sobre violência doméstica em famílias de pessoas autistas em cinco bases de dados e não encontrou nenhum que atendesse aos critérios de inclusão (Nicolau, 2026).

O segundo é a ausência do dado no registro policial. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública não informa quantas vítimas de violência têm alguma deficiência. Não é omissão de análise: o campo não existe no boletim de ocorrência, ainda que o registro dessa informação esteja previsto na Lei Maria da Penha desde 2019 (FBSP , 2026).

O terceiro é a ausência da pergunta na pesquisa sobre autismo. O Mapa Autismo Brasil, maior levantamento nacional já feito sobre a população autista, reuniu 23.632 respostas em 2025. Seu questionário tem 43 questões sobre diagnóstico, terapias, escolaridade, renda e cuidadores. Nenhuma delas trata de violência (Instituto Autismos, 2026).

A tese deste ensaio é que essas três ausências não são a mesma coisa vista de três ângulos. São falhas distintas, em instituições distintas, que se reforçam. Sem dado, não se dimensiona o problema. Sem dimensionamento, não se justifica política específica. Sem política, ninguém cobra o registro. O ciclo se fecha, e a pessoa autista permanece invisível justamente nas estatísticas que existem para proteger quem é vulnerável.

O texto está organizado em quatro movimentos. Primeiro, o que a evidência internacional já estabeleceu. Segundo, por que o risco é maior — os mecanismos, não apenas os números. Terceiro, a descrição das três camadas do silêncio brasileiro. Quarto, uma distinção conceitual que ajuda a entender por que o silêncio persiste: a diferença entre o vulnerável que a lei define e a vulnerabilidade que a estatística não mede.

Confira o arquivo na íntegra.

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