
Reproduzimos abaixo o relato de uma participante do III Seminário Internacional de Educação Inclusiva, que ocorreu simultaneamente à VIII REATECH.
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Querida Pat e demais colegas
Como sei que nem todos conseguiram investir 250 reais para participar do III Seminário Internacional de Educação Inclusiva (SEMINEDI), resolvi compartilhar com vocês alguns trechos das palestras que assisti. Irei começar com a palestra do Professor Alexander Wayne Mackay do Canadá, grande sugestão da Pat Almeida aos organizadores do evento. Peço desculpas pelo relato não ter ficado primoroso como a fala do palestrante, mas é o que consegui entender e transcrever durante a apresentação. Talvez algum jornalista presente já tenha enviado a transcrição dessa palestra que, com certeza, estará melhor que essa, mas como não tenho essa informação, me atrevi a escrever.
O Prof. Mackay começou apresentando um pouco de seu histórico pessoal. Foi professor do ensino médio (colegial) e depois de Direito, maIs especificamente, do direito à Educação, dentro da perspectiva dos Direitos Humanos. No Canadá, a educação está sob a jurisdição da comunidade local (província). A discussão de inclusão em minha província remete a década de 80, motivada pela Declaração Universal de Direitos Humanos. Sei que a platéia está muito interessada nos apoios necessários á inclusão, mas é preciso dizer que um sistema educacional inclusivo é importantíssimo em nível internacional, pois promove uma boa apresentação (imagem) externa de um determinado país.
Sobre o tema inclusão, os documentos internacionais são diversos na definição de inclusão, cheguei a usar o termo integração nas traduções de documentos internacionais. A terminologia pode ser problemática. Devemos igualar os entendimentos dos termos. Inclusão é um conceito muito mais abrangente que apenas o ligado à deficiência – deve responder a todos os segmentos da sociedade. Elogiou as definições do Prof. Sassaki, que coloca que uma escola inclusiva é aberta para todos, onde todos aprendem juntos e que a família é insubstituível no processo de aprendizagem justa.
O Prof. Mackay disse que inclusão é uma maneira de pensar e agir que permite que os indivíduos se sintam aceitos, seguros. Esse pensar se preocupa com a melhoria e bem-estar de cada indivíduo na comunidade. É um sistema de crenças que provoca a sensação de “pertencer” a uma sociedade. Na educação è uma questão de abordagem. A atitude é diferente se você tem a abordagem correta. As diferenças são importantes. A inclusão não trata apenas de se estar com pessoas com deficiências. Ela nutre a auto-estima de todos, demonstra a diversidade de todas as formas, beneficia a todos os estudantes em todos os aspectos. Aplica-se a todos os estudantes. Todos nós temos características diferentes e devemos ser incluídos. Se você for inclusivo, deve também ser diverso (pensar sistemas flexíveis).
A inclusão verdadeira começa com a mão do coração ( referindo-se a mão esquerda como símbolo utilizado no Brasil). A quebra de velhas atitudes é mais relacionada com o coração e não com a mente, apesar da importância dos recursos necessários ao apoio. No Canadá temos 10 regiões (como os estados). A inclusão é um objetivo em todos eles, mas depende de cada província a sua efetivação. Existe uma variedade grande nas práticas. Alguns problemas são similares aos do Brasil e aos encontrados em toda a América. Em cada província há uma definição específica para inclusão. Procurou-se elaborar um texto, no qual a inclusão aparecesse como uma filosofia e não como uma definição apenas, pois essa última limita o seu sentido (os políticos não gostam muito dessa elaboração mais filosófica, abrangente). Fizeram um grande esforço para que o significado de inclusão fosse compreendido em todos os seus aspectos.
Qual o elemento vital para ir da teoria para a prática? Não tenho as respostas, mas tenho algumas idéias (pistas):
• Comprometimento. A inclusão deve ser um compromisso de todos os envolvidos (políticos, instituições, sociedade).
• Flexibilidade. Os debates de idéias são importantes para modificar o sistema educacional. È preciso ter sensibilidade para responder às necessidades de cada indivíduo. Se a criança não está na escola regular, tem que se ter um bom motivo.
• Formação. Grupos educacionais bem formados, um time (interdisciplinar) com vários níveis de governabilidade, trabalhando juntos para responder ás demandas.
• Cooperação. Entre as escolas, os pais e os grupos de apoio ( como os terapeutas). Pais e escolas devem estar do mesmo lado, pois muitas vezes não concordam, porém devem trabalhar na mesma direção.
• Desafiar todos os alunos a atingirem o seu potencial pleno.
• Não se deve partir do pressuposto de que eles não sabem e não vão aprender.
• Limite das expectativas razoáveis da educação.
A Finlândia tem o melhor sistema educacional do mundo. Eles passam muito tempo tentado compreender como melhorar toda a situação que envolve a criança em todos os aspectos (sociais e culturais). Definir educação é mais complexo do que inclusão (ler, escrever, pensar crítico, etc.). Historicamente, a maioria das definições era acadêmica, não se levando em conta as habilidades sociais, que são tão importantes quanto as escolares. Para qualquer criança, estar na sala de aula é o mais importante, portanto educação tem aspectos mais abrangentes que apenas uma definição. A escola também não pode ser responsável por todas as lacunas sociais. Não pode substituir a família, por exemplo. Um dos problemas para a educação é a financeira, mas deve-se ter em conta que se não gastar agora, o pagamento no futuro será maior. É melhor para uma sociedade investir na educação.
Pergunta: Há problemas de disciplina, comportamental, nas classes diversas. Como equilibrar o trabalho para todos? Como fazer para incluir um “aluno que atrapalha” a sala? A lei no Canadá ( diretrizes constitucionais/ direitos humanos) é o que dá o suporte para qualquer atuação com os alunos. Ter um princípio legal é importante como um farol para os navios. As pessoas com deficiência devem ter as dificuldades desnecessárias eliminadas. A chave para o sucesso é o comprometimento, os recursos humanos e a formação. Os professores devem ter conhecimento sobre os tipos de deficiência e diversidade. Os professores são formados para responderem aos problemas comportamentais da diversidade. Cada um deve saber como promover o processo de inclusão. Para fazer isso bem é um desafio. A pergunta é: como saber se obtivemos sucesso? Existem alguns indicadores, tais como, a taxa de abandono da escola, a satisfação do aluno e dos pais, se a autonomia do aluno foi melhorando – esses são alguns pontos que dão um norte para medir o sucesso. Uma sociedade justa e inclusiva é um ideal em processo.
Perguntas da Platéia: O processo de avaliação educacional no Canadá dos alunos com deficiência intelectual é igual ao dos outros alunos? Não, é diferente. Depende muito do nível de comprometimento. Para os alunos com deficiência severa, temos um plano geral de trabalho e outro específico, com objetivos diferenciados. Para aqueles medianos, o currículo é modificado um pouco, adequando apenas algumas abordagens. È preciso ser flexível, levando-se em conta a diversidade, o sistema de avaliação também é diverso, para que cada aluno também atinja o seu próprio potencial.
Pergunta: Se algum “aluno atrapalha” todos os outros, como vocês trabalham com ele e que apoios recebem? O problema comportamental não é específico das pessoas com deficiência. Ele ocorre em todos os segmentos. Se a criança estiver causando um grave problema em determinado momento, ela é retirada da sala e é inserida em outro processo educacional, no período em que está fora da aula. Agora, se o problema comportamental for em virtude de uma deficiência específica, não é justo punir a criança por essa característica, outros trabalhos devem ser realizados. È importante dar um ambiente educacional bom para todos os alunos..
O nível de apoio educacional não é tão abrangente assim, porque é muito caro. Os professores gostariam de ter mais apoios. A inclusão necessita de recursos. È um investimento importantíssimo de longo prazo, pois o sistema pode ter mais prejuízos no futuro se não investir no início, na educação de todos os alunos.
Abs
Kiki, mãe de Sofia fofa de 3 anos e meio
Fonte: Grupo Síndrome de Down – http://br.groups.yahoo.com/group/sindromededown/