Diversidade: o que estamos esperando?

Estão os espaços realmente abrindo-se para a diversidade ou estão apenas aceitando receber colaboradores de cores diferentes para manter as estruturas de dominação?

Por Ísis Aparecida Conceição, Especialista em Direitos Humanos – FD/USP, mestranda em Direito do Estado – FD/USP e voluntária Educafro(Educação e Cidadania para Afrodescendentes e Carentes) e IDDAB ( Instituto de Desenvolvimento da Diáspora Africana no Brasil).  

A eleição e posse de Barack Obama expressaram para os EUA, Brasil e mundo que o desejo e necessidade de mudanças e de pessoas competentes estão superando os estereótipos raciais que impediam, e ainda hoje impedem, que determinados grupos alcancem espaços de reconhecimento e prestígio.

Obama foi eleito, apesar de ser negro e apesar de não ser negro descendente de escravizados, foi eleito mesmo sendo diferente porque trazia, com competência, proposta de trabalho eficiente e eficaz.

Sabemos que os programas de políticas afirmativas, que permitiram que o pai do atual presidente americano e ele próprio ingressassem numa das universidades mais prestigiadas dos EUA, não são uma exclusividade americana. Esses programas são uma realidade em inúmeros paises multiculturais.

Durante o ano de 2008 e começo de 2009, percebemos que a eleição do chefe do governo americano pode ser, realmente, o prenúncio de uma mudança de pensamento mundial. Estereótipos dão lugar à percepção de que a exclusão racial resulta de diversos mecanismos que impedem que membros de determinados grupos realizem plenamente seus projetos de vida.

Esses elementos são objetivos e subjetivos. A auto-estima, apesar de ser desmerecida, é um elemento relevante na construção do projeto de vida do indivíduo negro, em um contexto que valora a sua cor como algo negativo.

Em 2008, compreendendo os inúmeros âmbitos da estrutura de exclusão racial, o governo da Inglaterra deu início ao programa Reach, cujo nome já diz dos objetivos do programa: ajudar jovens homens negros a ambicionar mais e, conseqüentemente, atingir mais.

O Reach selecionou um grupo de jovens negros bem-sucedidos para visitarem escolas e projetos contando suas histórias de vida. Nesse sentido, o projeto é um programa de Ação Afirmativa que busca mitigar os efeitos psicológicos da idéia de supremacia de uma raça em relação à outra.

O ministro Joaquim Barbosa em sua obra, “Ação Afirmativa e Princípio Constitucional da Igualdade”, pontuou de forma eloqüente que as ações afirmativas têm como uma de suas metas formar role models, elas “cumpririam o objetivo de criar personalidades emblemáticas (role models). Vale dizer, elas seriam um dos principais instrumentos de criação de exemplos vivos de mobilidade social ascendente: os representantes de minorias que, por terem alcançado posições de prestígio e poder, serviriam de exemplo às gerações mais jovens, que veriam em suas carreiras e realizações pessoais a sinalização de que não haveria, chegada a sua vez, obstáculos intransponíveis à realização de seus sonhos e à concretização de seus projetos de vida.” (Barbosa, 2001, p.48/9.)

A figura de um indivíduo negro bem-sucedido tem efeito tanto entre os negros que o vêem, percebendo que podem também ambicionar mais, bem como afeta positivamente os não-negros, contribuindo para ajudar a desconstruir estereótipos relacionados aos grupos étnicos com os quais não convivem.

O governo britânico pautou esse programa neste sentido, de formar e visibilizar os role models negros jovens do país.

No mesmo sentido, de fomento a políticas nacionais de ações afirmativas para afrodescendentes, no mesmo ano em que a Inglaterra anunciou o Reach, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, trouxe a público o seu programa de diversidade e inclusão. Ele denunciou a plena necessidade de política pública estatal em diversos setores com a finalidade de inclusão.

Nicolas Sarkozy, além de nomear um secretário exclusivamente para pensar a diversidade no país, anunciou que a partir de 2010 todas as escolas preparatórias para as universidades consideradas de elite na França terão 30% de suas vagas reservadas para as minorias étnicas e sócio-econômicas.

A Europa abertamente abraça as políticas estatais de diversidade, enquanto nos EUA o desafio constitui-se em fazer com que as políticas de diversidade realmente apliquem-se no setor privado. Esse fenômeno conhecido como “horizontalidade dos direitos fundamentais”, ou “horizontalidade dos direitos humanos”, encara o setor privado como novo espaço de intervenção e implementação dos valores relacionados à igual dignidade da pessoa humana.

É esse o fundamento da intervenção estatal em espaços privados, como as empresas, buscando a implementação de políticas de diversidade dentro e fora das instituições estatais, garantindo assim a representatividade de diferentes grupos em todos os espaços sociais.

A Europa deu início à implementação de políticas que permitirão a eles, no futuro, terem o seu Barack Obama, alguém que, independente dos preconceitos e estereótipos, é diferente, mas nem por isso desigual, alguém em quem o país pode depositar suas esperanças e confiança.

Nós aqui no Brasil estamos, timidamente, buscando esse caminho. Os debates ainda são carregados de ranços escravistas que permanecem em nossas relações cotidianas e influenciam as decisões de gestores nos espaços públicos e privados.

É certo que alguns, muito poucos, não estão de costas para o curso da história e, em sintonia com o mundo, sabem que a sustentabilidade das relações humanas depende da tomada de decisão por parte deles em minimizar, até a eliminação, as desigualdades que por tanto tempo naturalizamos.

É claro que todo caminho trilhado tem suas tortuosidades e suas pedras. Como explicar negros mais comprometidos com os valores que o levam ao sucesso do que com os valores que representam a sua origem e beneficiam a sua comunidade?

A importância dos role models é nesse sentido apresentada em oposição aos perigos do tokenismo, também um possível reflexo do “efeito Obama”, que tornou o “ser negro” um reconhecido espaço de oportunidades e “pequeno” poder.

Tokenismo seria o fenômeno de formação de Tokiens, que são pessoas desproporcionalmente representadas, numericamente, em determinados espaços que antes lhes eram negados. São representantes de minorias os quais são inseridos/ incluídos com a finalidade de provar a não discriminação nesses locais.

Assim, são identificados “bons” e “maus” Tokiens. Os “maus” seriam aqueles representantes de minorias que compactuam com a lógica de funcionamento do espaço, a saber, a adoção de meras simulações de inclusão sem relevância real. O “bom” é aquele que não compactua e tem um postura combativa frente à estrutura posta no local, indicando simbolicamente uma igualdade de representação por vir no espaço onde foi inserido. (Fineman, Martha Albertson., 1998).

Estamos em um momento onde a formação de negros tokiens e negros role models ou figuras emblemáticas nos levará à necessária discussão: estão os espaços realmente abrindo-se para a diversidade ou estão apenas aceitando receber colaboradores de cores diferentes para manter estruturas de dominação?

Importante neste momento é apontar que o Brasil, insistindo em não participar do debate sobre inclusão da diversidade, diversidade que temos como elemento de orgulho nacional, insiste em ignorar o curso da história.

Parece que da mesma forma que aconteceu com o processo de abolição da escravidão, seremos os últimos a perceber as vantagens e a necessidade do mundo moderno, de diversificar as percepções e que apenas os espaços que permitem essa diversidade terão potencialidade real de competição, superação e realização.

Fonte: http://www.irohin.org.br/imp/template.php?edition=24&id=195

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