por Lucio Carvalho
“O tempo todo Deus está por vir” – Sabotage
Venho nutrindo cada vez mais a convicção de que, confirmando o que sempre ouvi dizer (e quem foi que disse isso?), tudo tem seu preço. Em termos economicistas: não existem benefícios sem custos. E é exatamente nesse ponto que quero chegar: o ponto dos custos. O estabelecimento dos serviços públicos através da via única das relações comerciais vem trazendo a sociedade contemporânea ao colapso das violências. Assim, não há quem esteja alheio ao sistema de trocas que especializa cada vez mais os consumidores de um lado e os excluídos do outro.
É como dizer que para cada pós-graduado houvesse um (ou mais de um, certamente) presidiário correspondente. Nesse abismo não há encontro de interesses e os conflitos são abordados exclusivamente pela via penal. No entanto, a mesma música embala a todos, mas não livre de dissonâncias. O consumismo é a forma com que, naturalmente, o sistema de produção capitalista resolveu um impasse que está posto a todas as pessoas, sem distinção: pagando, tudo se obtém. Fica subentendido desde aí que, se é possível obter determinado bem ou serviço através do pagamento, também é possível estender esse raciocínio a todas os outros tipos de bens e serviços, eximindo-se o Estado de atender minimamente bem mesmo os serviços mais essenciais, como saúde e educação, por exemplo.
Isso explica rapidamente a degradação dos serviços públicos: se os ricos não mantêm seus filhos nas escolas públicas e eles mesmos não freqüentam as filas do SUS, por que haveriam eles de se importar com isso? Não é preciso ser gênio para perceber que a lógica que impera há muito tempo em nosso país é: aos pobres o pior. Por ser eficiente, essa lógica encontra terreno fértil para reproduzir-se em praticamente todos os campos da vida pública.
Mesmo as práticas inovadoras, que deveriam trazer seus benefícios primeiramente aos mais necessitados, acabam também ocorrendo em sentido inverso. Primeiro, regozijem-se os que podem pagar. Ao povo, brioches. Não que tenha alguma graça, mas é muito engraçado perceber alguns fatos totalmente incoerentes que, observados rapidamente, parecem absolutamente normais.
No terreno da educação, por exemplo, quando se trata da temática da inclusão escolar das pessoas excluídas da escola, o que pode significar a inclusão escolar na rede privada? Observado rapidamente, parece um fato absolutamente normal (afinal, já estamos acostumados a ter que pagar por tudo e qualquer coisa), mas não há a menor graça em constatar-se que, mesmo falando de inclusão, há uns mais excluídos que os os outros. A inclusão escolar privada deveria acompanhar, por semelhança, serviços como a segurança privada, os planos de saúde particulares e os playgrounds como área de lazer preferencial. Enquanto subsistir como apenas um produto para os não-excluídos-economicamente consumirem, e não um direito social efetivo, será apenas mais um objeto de desejo para os excluídos de verdade. Quem haverá de se importar com isso?
