Jorge Márcio Pereira de Andrade
“No hospício, como nos cárceres, o tempo está como que paralisado: se têm a sensação de um presente enorme e vazio…”
(Alfredo Moffatt in Psicoterapia del Oprimido – Editorial Libreria ECRO, 1975)
O mês de Maio já foi o mês das Noivas, embora ainda continuem sendo os seus vestidos um bom negócio. Hoje é o mês em que se lembra com determinação alguns fatos históricos e também o mês para nos relembrar o que mantivemos de conluio e silêncio, instituindo e mantendo em negação algumas de nossas instituições. Amanhã no dia 13 comemoramos, oficialmente, a abolição da escravatura, embora ainda tenhamos o indigno trabalho escravo em nosso país, e a potência Zumbi só se manifeste realmente no dia 20 de Novembro.
No dia 18 devemos continuar lembrando que ainda temos um infindo processo de desinstitucionalização a realizar, assim como um grande estigma a combater. 18 de Maio, é o dia Nacional de Luta AntiManicomial. Muitos precisam saber que hoje temos um processo de Reforma Psiquiatrica, com muitos avanços, muitas transformações institucionais, porém, apesar destas conquistas, ainda nos mantemos distanciados, até recentemente, na Era da Idade Mídia, para além da esquizofrenia nas novelas globais, de um assunto incomodo, delicado e pouco discutido: os encarcerados nos antigos manicômios judiciários. A eles dedico este texto sobre os Vivos Esquecidos.
Em 19 de abril deste ano o Correio Braziliense nos informava: cerca de 4500 pessoas estão ‘abrigadas’ nos manicômios judiciários no país. Reforçava a reportagem que estes sujeitos têm três escolhas existenciais possíveis: ou o suicídio, ou a internação ad infinitum (como dizem nas ruas: forever) ou a sobrevivência em um ambiente dantesco e desumano. É o que nos revelou o documentário de Débora Diniz: a Casa dos Mortos, que vem recebendo elogios e reconhecimento em todos os espaços onde foi exibido (ler comentário abaixo).
Tenho pesquisado sobre as interfaces do cinema e da sua utilização em processos de conscientização e educação. O que um filme, um documentário pode nos revelar?Como torná-lo, paulofreirianamente, em um instrumento, além de artístico e estético, em ferramenta de crítica e conscientização?. Talvez, para alguns cinéfilos como eu,o cinema e suas metáforas, nesse momento de distanciamento e temor virótico de ser tocado pelo Outro, nos resgate a grandiosidade/generosidade de não nos afastarmos de nossas próprias misérias, paixões e histórias humanas. De, ao vermos uma representação ou documentação da crueldade ou da transcedência dos seres humanos, nos tocarmos, nos deixar afetar por suas incomensuráveis cartografias, suas infindas imagens-movimento, suas inesquecíveis musicalidades.
Como nos mostra Paul Virilio com a advertência: “Vós que entrais no inferno das imagens perdei todas as esperanças”, citando Abel Gance, quando na última versão do J’Accuse, uma infinidade soldados mortos se levantam e desfilam em meio aos vivos em frente ao ossário de Douaumont, homenagem póstuma de um mundo pós-guerra aos seus sacrificados. Assim algumas pessoas poderão se sentir diante das imagens da Casa dos Mortos.
Eu aqui um esperançoso, porém bioéticamente crítico, ainda resisto e re-existo na busca de uma outra forma de ser e estar vivo. Daí veio a expressão deste editorial. Destas imagens, onde a vida dos infratores da lei, nas custódias e detenções, são tidas como vidas descartáveis, como a do sujeito que está preso, há mais de 30 anos, por ter atirado uma pedra em outra pessoa e roubado a sua bicicleta, conectei-me, de corpo e alma, com outro documentário: Justiça, de Maria Augusta Ramos. Documentário que me tocou sobre nossos cárceres e suas antesalas do julgamento, é que, cinematografica e politicamente, refleti sobre algumas idéias, incipientes, que quero compartilhar brevemente com nossos difusores.
Os 4500 que poderia muito bem ser o título de um seriado de perdidos na selva, são os ‘defuntos sociais’ que têm, pela trangressão das nossas leis e por seus crimes, a punição que viola diversos dos direitos humanos e mantêm em prisão ‘quase’ perpétua tais vivos no esquecimento.
Esquecimento que é gerado pela perda que os internos-eternos-presos sofrem, tão naturalizada e massivamente. Eles vivenciam, sem distinção, sem nenhuma dignificação, uma forma de ‘tratamento’ que lhes torna impossível elaborar ou vivenciar quaisquer formas de sonho com a liberdade. E, quando conseguem não se aniquilar, ou suicidar, passam , sem complascência, ao temor de serem aniquilados. Eles vivem o inverso da frase de Canetti, em seu Massa e Poder: eles têm, sim, o direito ao temor, de forma assustadora, de serem tocados, inclusive por nós. Eles são outros infames da história.
Lá nos cárceres onde mantêm-se, por sua condição de exclusão e periculosidade, por serem um ‘alto risco’ para a Sociedade, presos a velhos estigmas e casos periculosos da Psiquiatria Forense, com o caso da Fera da Penha. Passam de sujeitos, de humanos a feras aprisionáveis, pagam caro por seus corpos de exceção e risco.
Eles devem por isso experimentar, suponho, a punição, o castigo eterno (como Sísifos? Prometeus?) de viverem somente no Passado congelado. Para estes infratores loucos só resta uma estreita janela, a fruta madura e venenosa do seu mundo sem futuro. Parecem-se com os condenados dos campos de concentração, bem descritos por Viktor Frankl, que ficavam felizes quando um trem que os levava de um país para outro, de um campo de extermínio, como Auchwitz, para campos de trabalhos forçados. Lá a chaminés dos fornos crematórios não existiam. Lá a Dona Morte estava adiada, mesmo que soubessem que poucos destes vagões repletos iriam sobreviver.
Estes sujeitos, portanto, pela forma como ainda temos visto, pelo documentário, são sobreviventes. São resistentes corpos desviantes adoecidos e institucionalizados aos quais nossas instituições não oferecem nenhuma possibilidade de projeto existencial. Lá não há curvas nas linhas férreas e nos vagões abarrotados. São mortos-vivos por decreto judicial que não têm nem futuro, nem devir, com ausência de projetos que os resgatem, mesmo que seja com a poesia, como a de Bubu, com suas 12 internações em manicômios.
Portanto, nós aqui fora, nas nossas clausuras e manicômios mentais em persistência, principalmente os que militam por Direitos Humanos, temos o dever de nos deixar afetar pela Casa dos Mortos. Nós a quem não é negado o direito, ainda, de nossas diferentes formas de trabalhar, amar, criarmos filhos, constituirmos famílias, sonharmos com um outro mundo possível, ecosofica e micropoliticamente construído, precisamos nos incluir na busca de um olhar ético, político e estético diante dessa miserabilização e vulneração de vidas encarceradas. Nós que o tempo, ainda que vertiginoso, nos dá chance de alguma dignidade, precisamos urgentemente de nos lembrar dos esquecidos. Nos lembrar destas instituições onde o tempo adquire uma dimensão indefinida e disforme, onde os que lá permanecem estão somente no presente, para sempre. A eles, em sua vida nua ( Giorgio Agamben) e decreto de degenerescência lombrosiana, no tempo dos Estados de Exceção e das biopoliticas dos corpos, restará somente celas e grades, como forma de cuidados psiquiátricos e reabilitação?
A todos e todas o meu desejo/afeto, incentivando para que o dia 18 de Maio seja também o Dia Nacional de Luta pela Desinstitucionalização e Transformação de todos os Manicômios Judiciários do Brasil.
E os VIVOS Esquecidos na Casa dos Mortos serão lembrados!
Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2009-2010 – livre reprodução com citação da autoria.
——————————————————————————–
A CASA DOS MORTOS (Débora Diniz, 2009) *****
Uma das tendências mais comuns no trabalho investigativo de assuntos específicos é o desespero por descobrir as causas. Se o problema é a violência contra a mulher, como em Coragem, Mulher, exibido ontem, há um interesse constante em se descobrir qual a razão deste problema. Não há, sobretudo a partir do ponto de vista jornalístico, um problema nisso. Entretanto, aí está também um complicador: o documentário cinematográfico não é, de maneira nenhuma, apenas jornalismo. Ele deve ser, acima disso, uma construção artística, logo, baseada na subjetividade do olhar. A beleza dos grandes trabalhos deste gênero está justamente na transcendência ao excesso de objetividade, de linguagem referencial. Eis o que é A Casa dos Mortos, da antropóloga Débora Diniz.
Revelar sua profissão já indica algo curioso. Débora não é cineasta. Ela tornou-se a partir deste trabalho. Ela é doutora em antropologia, mas isto tem bastante a ver com o processo que ela escolheu para captação de suas imagens e desenvolvimento do seus trabalho. Ora, A Casa dos Mortos trabalha com a ideia do olhar livre de amarras que delimitariam o dispositivo. Ele se faz arte a partir do momento em que estes presos de um manicômio judiciário deixam de ser “objetos de estudo” e são gente – o necessário para a documentação cinematográfica e para o trabalho investigativo de um antropólogo.
O olhar, portanto, talvez seja o fator crucial para a grandeza do filme. Débora busca que seu caminhar pelo manicômio judiciário de Salvador seja a partir da perspectiva de Buba, um poeta que pontua o filme com sua narrativa. Ele não surge, a não ser no final, assim como um diretor em seu filme, cujo nome sempre surge nos créditos. Os outros, assim como ele, deixam de ser invisíveis não por aparecerem em imagem, mas porque, a partir do interesse de Débora, tem a chance de ser algo além das delimitações que damos a eles por estarem ali, num manicõmio.
Ricardo Oliveira
Direto da Sala de Imprensa do 4º Cineport. Filme assistido na Sala Digital, segunda-feira dia 04/05/2009.
http://diversita.blog.br/blog/2009/05/04/a-casa-dos-mortos-debora-diniz-2009-4%C2%BA-cineport/
“MANICÔMIO JUDICIÁRIO É A SUCURSAL DO INFERNO” (A TARDE, 06 DE DEZEMBRO DE 2002)
A Procuradoria Geral da República (PGR) , pela Procuradoria Geral dos Direitos do Cidadão, promoveu recentemente em São Paulo e Brasília, o simpósio Justiça e Saúde Mental – Loucura: o insano sistema de saúde mental apresentou, por meio de abordagens multidisciplinares, quadros alarmantes do atendimento prestado pela justiça e pelos órgãos de saúde aos doentes mentais infratores. Contou com apoio da Associação Psiquiatrica de Brasília e Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. A abertura ficou com a exibição do filme ” A CASA DOS MORTOS”, produzido pela antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis).
Fonte:
InfoAtivo DefNet – nº 4218 – Ano 13 – MAIO de 2009
EDIÇÃO EXTRA
Editor Responsável – Dr. Jorge Márcio Pereira de Andrade (CREMESP 103282)
WWW.DEFNET.ORG.BR
RETRANSMITE E SOLICITA DIFUSÃO NA INTERNET – CAMPINAS, SP – 12-13/05/09
Olá,
gostaria de agradecer a reprodução do texto aqui no blog. Parabéns pela iniciativa.
abraço’s