O uso das palavras – MAQ para Gil Pena

Pessoal

A discussão está tão boa que não tenho como não compartilhar com todos. Para
quem perdeu o começo, leia debaixo para cima.

O tema se refere ao manifesto “Em nome do respeito” , que pode ser lido em

http://xiitadainclu sao.blogspot. com/2008/ 08/em-nome- do-respeito. html

Gil Pena é médico patologista e pai. Dedica-se a estudos na área da
educação, dentro da linha do Projeto Roma.

MAQ (Marco Antonio Queiroz) é o síndico dos fabulosos www.bengalalegal. com e
www.accessibilidade legal.com

Oi Gil Pena, boa noite.

O amigo também faz algumas colocações interessantes, com a diferença de que
eu nunca assisti alguém não embutir a cultura e o preconceito colocando-se
cego como adjetivo, até mesmo como substantivo. A faca está cega. A faca sem
corte é uma faca que não funciona, ou não? Você é ou está cego quando se
refere a alguém que enxerga nunca foi e nunca será para elogiá-lo, dar-lhe
um atributo positivo. Cegueira da mesma forma.

Quando o amigo diz:
“A questão difícil, acredito, é essa nossa ‘cegueira’ (desculpe, MAQ) em não
perceber possibilidades múltiplas de caminhos: com o”

Não existe nenhuma possibilidade de caminhos quando se fala da cegueira para
qualquer fim que não seja ela própria.

De forma diferente que o retardo e o retardado em que podemos nos referir
ao tempo, a os substantivos cegos e cegueira não existe sem a pessoa com
deficiência e a própria deficiência. Portanto, qualquer derivativo que se
faça que não seja para nos referirmos a algo que não seja à cegueira ou ao
cego está diminuindo ou desqualificando esta coisa ou pessoa que não seja o
próprio cego. A única expressão existente e que eu não encontrei o motivo
para existir e que não pejorativisa na qualificação é “nó cego”. Quisera eu
saber a origem desta qualidade do nó.

Até quando dizemos o amor é cego a coisa fica complicada, pois o sujeito
acometido desse amor deixa de enxergar os ddefeitos do ser amado, ficando
alienado de todo o resto que não seja seu objetto de amor. Eu disse
alienado, podendo-se confundir com alucinado, louco, como louco de amor,
cego de amor. É um amor muito bonito, mas que aliena, deixa o sujeito “fora
do mundo”. Eu como pessoa cega não sou alienado e nem estou fora do mundo,
nem minha cegueira me deixa alienado ou fora do mundo, com ou sem aspas..

No entanto, Gil Pena, na palavra retardado, apesar de conseguirmos só nos
referir ao tempo em atraso, dificilmente quando o amigo diz “você está
retardado” ou “você é um retardado”, de forma diferente que utilizar a
palavra cego, alguém não vai pensar apenas que o sujeito está atrasado e sim
que é um bobão. Claro que tudo tem o seu contexto, mas a carga dessas
palavras é tremendamente pesada em qualquer contexto social. Isso é tão
forte que chamam de cegos pessoas com deficiência visual, sendo nós cegos
pessoas com deficiência visual total.

Senpre refiro minha deficiência como cegueira e a mim como cego e não existe
algo mais simples que isso, e o simples é tudo aquilo que não pode ser
dividido ou simplificado, pois já é. Quando eu falo que tenho um amigo cego,
por ser eu quem está falando, nunca pensam que o sujeito é um alienado, mas
uma pessoa com cegueira.

O Jô Soares tinha um personagem, há uns 20 anos atrás, que dizia: “tem pai
que é cego”. Porque o filho era um gay e o pai o descrevia como um macho,
aliás, todos conceitos bastante discutíveis. Outro personagem dele, era um
cego que pegava nas coisas e não as distinguia. Segurava uma bengala e
achava que era qualquer coisa menos uma bengala, segurava um joelho e dizia
que era um nariz achatado, coisas absurdas que um cego nunca faria e, como
qualquer comediante, fazia todo mundo rir..

Por vezes chego para pessoas e digo: “Você está triste, aconteceu alguma
coisa?”. Quando é a primeira vez a pessoa se espanta e só falta retocar a
maquiagem para disfarçar…. a VOZ triste e deprimida que está emitindo.

“O pior cego é aquele que não quer ver”. Esse ditado popular se utiliza do
conceito figurativo e objetivo da palavra cego, dizendo claramente que os
dois cegos são ruins. Existe ainda uma interpretação para o cego real,
podendo ser ruim ser cego real porque não enxerga ou porque, além de não
enxergar é um alienado sem culpa da realidade que lhe ocorre, já que o
ditado popular tem um cunho moral..

Enfim… não posso mudar o dicionário, mas tentamos, e “o tempo não para”,
colocar uma semente no mundo, por isso todas as nossas lutas existem. Um
dia, antes do próximo preconceito, vão pensar em nós.

A Globalização é cega”. É ou não é? (risos).

Abraços de um chato. MAQ.
***
Bengala Legal – Cegos, Inclusão e Acessibilidade: www.bengalalegal. com
Acessibilidade Legal – Sites Acessíveis para todos:
www.acessibilidadel egal.com
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P. S.: Você está recebendo um e-mail de uma pessoa cega. Isto é inclusão
digital! Comemore conosco.
Uma sociedade inclusiva é aquela que reconhece, respeita e valoriza a
diversidade humana.
MAQ – Rio de Janeiro – CEL: (21) 9912-0000.
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