Escolas e leitos de Procusto

Descrição da imagem: globo formado por teclado de computador.Elisangela Zampieri

http://sobreeducacao.blogspot.com/2009/04/inclusao-de-alunos-com-deficiencia-as.html

A inclusão de alunos com deficiência às classes regulares, com poucas exceções é ainda uma experiência bastante difícil. No entanto, essa dificuldade não reside apenas na deficiência, mas também e principalmente no fato de a escola se configurar como uma estrutura altamente rígida. A escola não foi projetada para a diferença. A dificuldade maior nao está, portanto, no aluno e sim no projeto de educação que desenhou uma escola para os iguais. Na base desta rigidez, está a ideia errada de que todos partem das mesmas condições e que todos têm a oportunidade de chegar ao mesmo ponto se seguirem pelo mesmo caminho.

Na mitologia grega há um mito que se chama Leito de Procusto, que relata o seguinte:

Procusto era um salteador de estradas. Na altura do caminho em que ele se instalava, julgava quem poderia fazer a travessia. Para realizar o julgamento, Procusto dispunha de um leito, no qual ordenava que ali se deitasse todo aquele que desejasse cruzar a estrada. Se porventura, o indivíduo não coubesse na medida exata da cama, sem titubear, ele esticava o pretendente ou cortava-lhe as pernas para que tivesse, então, o tamanho ideal. Triste era a sorte daquele que não coubesse no leito de Procusto. A mutilação ou o suplício, era o seu castigo. Não haveria perdão, nem desculpas. A lei posta que estava, não dava chances a ninguém.

Vivenciar a diferença não é uma experiência aceitável para nossa cultura. Assim como Procusto possuía seu leito implacável, desta forma possuímos também, um senso de julgamento que, não raras vezes, mutila, senão fisicamente, mas psicologicamente, aquele que se atreve a fugir dos padrões estabelecidos

É provável que o insucesso de muitos alunos, resulte do fato de a escola lhes oferecer uma cama única e lhes cortar o corpo e a alma à maneira de Procusto. E isto não deve recair apenas sobre a figura do professor, pois é resultado da força de relações diversas que ali se estabelecem.

Possibilitar à todos, meios de acesso e permanência com qualidade às instituições de ensino é o grande desafio que se configura, e isso requer da escola abandonar verdades cristalizadas e abrir-se à novos paradigmas educacionais, em mudar, rever conceitos, em desaprender, antes mesmo de ensinar… Pra que a escola não tenha o mesmo triste fim de Procusto.

One Comment

  1. Minha querida amiga Elisangela!
    Concordo com você quando diz que a escola não foi projetada para a diferença, e, também nós, professores, não fomos preparados para trabalhar com alunos deficiências especiais em classes regulares.
    Muita coisa precisa ser mudada, por isso faço minha as palavras da Ida:
    “A Paralisia Cerebral não é uma doença, assim como uma cicatriz não é um ferimento…”
    ‘Do mesmo modo que quem vive com uma cicatriz, olha para o local antes machucado e vê uma marca em seu corpo, quem vive com Paralisia Cerebral, teve por muito tempo e ainda tem, em algumas situações, as marcas da lesão não apenas visíveis no corpo, mas também refletidas na sociedade, que pelo desconhecimento ou mesmo descaso, cria barreiras atitudinais capazes de atrapalhar ou impedir o desenvolvimento pleno desse grupo de pessoas no qual eu me incluo.”
    Ida Beatriz Mazzillo

    Fraternalmente e carinhosamente

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